10 de março de 2010

OSESP inaugura temporada 2010 em clima de brincadeira

Depois de um ano conturbado pelas polêmicas levantadas com a saída de John Neschling, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo deu o tom da nova temporada de concertos: descontração.

No primeiro dia de concerto, Yan Pascal Tortelier subiu ao palco para reger a Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro, composta por André Mehmari, que substituiu a tradicional execução do Hino de Francisco Manuel da Silva. Poucos compassos depois, no entanto, ficou claro que a obra sendo executada se tratava da Marselhesa. E assim que o tema do hino francês apareceu, Tortelier interrompeu a orquestra gritando “Stop!”. Apesar de recebida por risadas discretas, a brincadeira do novo Regente Titular da maior orquestra do país manda uma mensagem importante: é hora de acabar com o clima que a demissão de Neschling gerou e seguir em frente. Com uma temporada complexa, que receberá 22 regentes convidados e dará início à ambiciosa iniciativa de executar todas as sinfonias de Gustav Mahler, não há tempo a perder com intrigas.

E com a bela execução de Lars Vogt do Concerto para Piano em Lá menor de Robert Schumann a orquestra se mostrou mais focada do que nunca. Apesar da escolha de uma interpretação não muito ortodoxa em alguns momentos, a sincronia entre solista e orquestra foi invejável, sendo ofuscada somente pela já conhecida simbiose que a OSESP mantém com o Coro de Naomi Munakata (que ganhou o reforço do Coral Paulistano para a interpretação do Salmo Op. 47 de Florent Schmitt). Passado um ano de muitas especulações e debates, a orquestra mostrou sua força logo na primeira semana, deixando todos ansiosos pelo que vem por aí.

16 de fevereiro de 2010

Linha de montagem

Uma das coisas contra as quais luto diariamente é o preconceito artístico. Não no sentido de ser um ativista e ficar incomodando parando as pessoas na Avenida Paulista para distribuir panfletos, mas no sentido de tentar não cultivar uma forma de discriminação. Antes de criticar com veemência uma peça ou um filme (pelo menos em público), tento ver se, quem sabe, não fui eu que não entendi a proposta da obra.

Tenho sérios problemas, no entanto, com arte transformada em mercadoria e produzida em série para vender e dar lucro para as produtoras/editoras/gravadoras. Filmes que seguem a mesma fórmula e com o mesmo argumento, livros que obedecem sempre um mesmo roteiro mudando somente os personagens e álbuns que não trazem nada para o gênero a que pertencem me tiram do sério. Não por ser um "artista", um "entendido" ou qualquer outro desses rótulos, mas porque essas obras raramente assumem o que são, tentando se vender como algo com mais profundidade do que de fato têm.

Agora, minhas sinceras desculpas: esse texto chato que você leu até aqui foi só um pretexto pra (re)mostrar um dos meus vídeos preferidos de todos os tempos. Have fun.


8 de fevereiro de 2010

Não sou (só) eu quem me navega

No último sábado (re)descobri a Rapsódia Húngara nº6 de Liszt. Adepto do air piano que sou (além de air cello, air conducting e air violin), passei o final de semana inteiro tocando a última parte da peça em (quase) todas as superfícies que encontrei; desnecessário dizer que meu braço ficou doendo e que me olharam torto no cinema.

Pensando em como nunca foi registrada a queda dos braços dos pianistas que tocam essa rapsódia, conversei com a minha professora de piano hoje sobre como evitar a dor e as lesões que podem vir de tocar essas peças insanas complicadas. No caso de escalas de oitavas, há algumas técnicas: levantar o pulso de tantas em tantas notas (para tensionar menos a musculatura), treinar a sequência em velocidades variadas, começando lá embaixo no metrônomo, entre outras tantas estratégias. Todas elas, no entanto, requerem uma dose de, digamos, supervisão.

Apesar de vivermos nos tempos de faculdade semi-presencial (sic), tutoriais e apostilas on-line, a cultura do "faça você mesmo" não tem lugar no ensino da música. Claro que ver os outros fazendo é uma ótima maneira de aperfeiçoar seu próprio desempenho, mas, como tudo na vida, com moderação. Aplicativos de Iphone, cursos em vídeo (ou mesmo em livros) ou tutoriais não servem para ensinar tudo. Música, assim como qualquer outra arte, é um mar complicado. Não dá para sair nadando sem farol ou navegando sem timoneiro. Caso contrário, o risco é de ficar flutuando a esmo, sem bóia, sem sair do lugar e com uma bela lesão para mostrar para os netos.

18 de janeiro de 2010

Plus du même


Não dá para falar mal de Charles Aznavour. Afinal, alguém que já compôs cerca de 1.000 canções, vendeu mais de 100 milhões de discos e foi escolhido pela CNN como entertainer do século (desbancando nomes como Elvis Presley e Bob Dylan) com certeza assegurou seu lugar na história da música. Só que, conforme a idade vai chegando, é difícil fugir daquela vontade de continuar fazendo o que sempre deu certo. E é nesse clima de segurança que chega Charles Aznavour And The Clayton-Hamilton Jazz Orchestra.

Trabalhando com a orquestra criada por John Clayton, Jeff Hamilton e Jeff Clayton em 1985, Aznavour traz um álbum que mais parece uma mistura de Tony Bennett com Diana Krall. E se você perguntar "e o que tem de mal nisso?", vou responder "absolutamente nada". Bem na verdade, o CD é muito gostoso de ouvir. É mais um dos bons exemplares de um grande vocalista à frente de uma grande Big Band. E grande talvez não seja o bastante quando falamos da Clayton-Hamilton Orchestra.

Já conhecemos bem John Clayton e Jeff Hamilton, que vêm trabalhando com Diana Krall desde 1993. Nesse álbum, no entanto, a orquestra parece gozar de mais independência, talvez por Aznavour, ao contrário de Diana, não ser a atração do disco como instrumentista e improvisador. Clayton não só produz o CD como assina todos os arranjos e rege sua orquestra nos trazendo grandes momentos, seja embalando a voz de Aznavour, seja dando destaque a seus ótimos solistas.

E, por falar em solistas, os destaques do álbum são as faixas com a participação de Rachelle Ferrell (Fier de Nous e I've Discovered that I Love You) e de Dianne Reeves (The Times We've Known). Intimistas e sutis, os arranjos mostram mais um casal cantando confortavelmente do que uma dupla de intérpretes tentando mostrar seus dotes artísticos e dominar a orquestra.
Charles Aznavour And The Clayton-Hamilton Jazz Orchestra pode não inovar, mas nos dá mais de algo a que estamos acostumados e de que não nos cansaremos tão facilmente.



Álbum: Charles Aznavour And The Clayton-Hamilton Jazz Orchestra
Artista: Charles Aznavour
Melhor preço: Saraiva
Quantos temakis vale: de dois a três
Quando ouvir: enquanto se prepara para começar o dia, enquanto cozinha ou enquanto arruma a casa esperando visitas.

14 de janeiro de 2010

O percussionista que veio do frio

Hoje em dia, experimentalismo é o que não falta na música erudita. Enquanto Cláudio Dauelsberg tem seu quinteto que utiliza UM piano de cauda das mais variadas formas, Sofia Gubaidulina escreve sinfonias com solos para o regente e John Cage (sempre ele) compõe uma peça que leva 639 anos para ser tocada (mais sobre isso em breve). Foi nessa onda que tropecei no trabalho de Terje Isungset, musicista norueguês que inovou ao utilizar instrumentos feitos de gelo.

Apaixonado pela natureza, Isungset atua principalmente como percussionista e já gravou ao longo dos anos música interpretada em madeira, pedras e granito. Agora ele parte para o trabalho com o gelo, explorando novas sonoridades percursivas, além de uma curiosa corneta que lembra o som de um berrante.

As peças interpretadas nessse repertório trazem uma sonoridade meditativa, que nos fazem flutuar e seguir o fluxo proposto por Isungset. A atmosfera criada é resultado da combinação dos timbres desses instrumentos que, segundo o próprio compositor, "trazem um som único, quente e bonito". Terje Isungset ressalta também o papel da natureza na criação desse som, quando diz que o gelo criado artificialmente é perfeito, transparente e sem bolhas, mas que resulta em instrumentos mortos, sem sentimento nem sonoridade.