8 de fevereiro de 2010

Não sou (só) eu quem me navega

No último sábado (re)descobri a Rapsódia Húngara nº6 de Liszt. Adepto do air piano que sou (além de air cello, air conducting e air violin), passei o final de semana inteiro tocando a última parte da peça em (quase) todas as superfícies que encontrei; desnecessário dizer que meu braço ficou doendo e que me olharam torto no cinema.

Pensando em como nunca foi registrada a queda dos braços dos pianistas que tocam essa rapsódia, conversei com a minha professora de piano hoje sobre como evitar a dor e as lesões que podem vir de tocar essas peças insanas complicadas. No caso de escalas de oitavas, há algumas técnicas: levantar o pulso de tantas em tantas notas (para tensionar menos a musculatura), treinar a sequência em velocidades variadas, começando lá embaixo no metrônomo, entre outras tantas estratégias. Todas elas, no entanto, requerem uma dose de, digamos, supervisão.

Apesar de vivermos nos tempos de faculdade semi-presencial (sic), tutoriais e apostilas on-line, a cultura do "faça você mesmo" não tem lugar no ensino da música. Claro que ver os outros fazendo é uma ótima maneira de aperfeiçoar seu próprio desempenho, mas, como tudo na vida, com moderação. Aplicativos de Iphone, cursos em vídeo (ou mesmo em livros) ou tutoriais não servem para ensinar tudo. Música, assim como qualquer outra arte, é um mar complicado. Não dá para sair nadando sem farol ou navegando sem timoneiro. Caso contrário, o risco é de ficar flutuando a esmo, sem bóia, sem sair do lugar e com uma bela lesão para mostrar para os netos.

18 de janeiro de 2010

Plus du même


Não dá para falar mal de Charles Aznavour. Afinal, alguém que já compôs cerca de 1.000 canções, vendeu mais de 100 milhões de discos e foi escolhido pela CNN como entertainer do século (desbancando nomes como Elvis Presley e Bob Dylan) com certeza assegurou seu lugar na história da música. Só que, conforme a idade vai chegando, é difícil fugir daquela vontade de continuar fazendo o que sempre deu certo. E é nesse clima de segurança que chega Charles Aznavour And The Clayton-Hamilton Jazz Orchestra.

Trabalhando com a orquestra criada por John Clayton, Jeff Hamilton e Jeff Clayton em 1985, Aznavour traz um álbum que mais parece uma mistura de Tony Bennett com Diana Krall. E se você perguntar "e o que tem de mal nisso?", vou responder "absolutamente nada". Bem na verdade, o CD é muito gostoso de ouvir. É mais um dos bons exemplares de um grande vocalista à frente de uma grande Big Band. E grande talvez não seja o bastante quando falamos da Clayton-Hamilton Orchestra.

Já conhecemos bem John Clayton e Jeff Hamilton, que vêm trabalhando com Diana Krall desde 1993. Nesse álbum, no entanto, a orquestra parece gozar de mais independência, talvez por Aznavour, ao contrário de Diana, não ser a atração do disco como instrumentista e improvisador. Clayton não só produz o CD como assina todos os arranjos e rege sua orquestra nos trazendo grandes momentos, seja embalando a voz de Aznavour, seja dando destaque a seus ótimos solistas.

E, por falar em solistas, os destaques do álbum são as faixas com a participação de Rachelle Ferrell (Fier de Nous e I've Discovered that I Love You) e de Dianne Reeves (The Times We've Known). Intimistas e sutis, os arranjos mostram mais um casal cantando confortavelmente do que uma dupla de intérpretes tentando mostrar seus dotes artísticos e dominar a orquestra.
Charles Aznavour And The Clayton-Hamilton Jazz Orchestra pode não inovar, mas nos dá mais de algo a que estamos acostumados e de que não nos cansaremos tão facilmente.



Álbum: Charles Aznavour And The Clayton-Hamilton Jazz Orchestra
Artista: Charles Aznavour
Melhor preço: Saraiva
Quantos temakis vale: de dois a três
Quando ouvir: enquanto se prepara para começar o dia, enquanto cozinha ou enquanto arruma a casa esperando visitas.

14 de janeiro de 2010

O percussionista que veio do frio

Hoje em dia, experimentalismo é o que não falta na música erudita. Enquanto Cláudio Dauelsberg tem seu quinteto que utiliza UM piano de cauda das mais variadas formas, Sofia Gubaidulina escreve sinfonias com solos para o regente e John Cage (sempre ele) compõe uma peça que leva 639 anos para ser tocada (mais sobre isso em breve). Foi nessa onda que tropecei no trabalho de Terje Isungset, musicista norueguês que inovou ao utilizar instrumentos feitos de gelo.

Apaixonado pela natureza, Isungset atua principalmente como percussionista e já gravou ao longo dos anos música interpretada em madeira, pedras e granito. Agora ele parte para o trabalho com o gelo, explorando novas sonoridades percursivas, além de uma curiosa corneta que lembra o som de um berrante.

As peças interpretadas nessse repertório trazem uma sonoridade meditativa, que nos fazem flutuar e seguir o fluxo proposto por Isungset. A atmosfera criada é resultado da combinação dos timbres desses instrumentos que, segundo o próprio compositor, "trazem um som único, quente e bonito". Terje Isungset ressalta também o papel da natureza na criação desse som, quando diz que o gelo criado artificialmente é perfeito, transparente e sem bolhas, mas que resulta em instrumentos mortos, sem sentimento nem sonoridade.


8 de janeiro de 2010

Não é só o Papa que é pop

Um artigo curioso saiu no Estadão de 01/01. Escrito por Daniel Wakin, do The New York Times, fala da relação de Alec Baldwin com a música erudita e conta que, em 2010, o ator vai apresentar um programa na WFMT Radio Network, comentando os concertos semanais da Filarmônica de Nova York. Logo no primeiro parágrafo, Wakin lembra a importância de associar a imagem de um astro pop à de uma orquestra, retomando no primeiro dia do ano um assunto que vem assombrando os musicólogos, a popularização da música erudita.

Em uma época em que as gravadoras estão lutando para sobreviver ao download de música digital, é difícil acreditar que o crescente público que busca os torrents compareça a salas de concerto, com exceção dos aficionados por música. Essa fixação, no entanto, dificilmente surge do nada. Assim como todos tivemos amigos ou irmãos mais velhos que nos apresentaram aos Beatles e ao Metallica e nos explicaram a genialidade de Steve Vai e Eddie Van Halen, não dá para entender sozinho a beleza dos detalhes das peças de Schumann ou a grandiosidade de Mahler.

O problema é que, com o passar das gerações, o estudo da música foi deixando de ser uma prioridade em casa. E, se as crianças não começam a estudar piano porque a mãe ou a avó tocavam, a educação musical fica para as escolas, que em sua maioria não trazem mais a música no currículo. Com a criação de mais orquestras e a inserção da música na educação básica, é possível reverter o envelhecimento do público e, como foi feito na Venezuela com a Orquestra Simón Bolívar, trazer vida nova às salas de concerto.

6 de janeiro de 2010

Feliz aniversário (atrasado), Brendel!

No dia cinco de janeiro, um dos mais notórios pianistas do século XX completa 79 anos.
Nascido na antiga Checoslováquia, Alfred Brendel fez sua fama em Viena, gravando com o selo Vox. Depois de um recital no Queen Elizabeth Hall, nos anos 1970, conseguiu um contrato com a Philips Classics Records, se mudou para Londres e fez fama como um dos principais intérpretes de compositores germânicos, principalmente Schubert e Beethoven (do qual Brendel foi o primeiro a gravar a integral dos trabalhos para piano solo).
Brendel acredita que a tarefa do pianista é respeitar completamente os desejos do compositor, sem abusar do virtuosismo nem dar nenhum toque pessoal à música. Dividindo a crítica, suas intepretações são amadas por alguns e odiadas por outros.