O bócio me fez assistir a um programa sobre o Ulysses Guimarães. O bócio me fez assistir ao quadro do Dráuzio Varella no Fantástico. O bócio me fez me sentir gordo. O bócio de um rapaz fê-lo comer sal iodado. O bócio me fez pensar em escrever essa resposta. O bócio me fez ficar de papo pro ar.
21 de janeiro de 2009
Primeira Gafe

2 de janeiro de 2009
Por onde andará Fê Meirelles?
Desaparecida desde 27 de setembro, a estrela do teatro paulistano foi vista pela última vez maquiando-se para representar novamente o papel que alçou-a ao estrelato. Segundo Marcella Rica, que interpreta Emilia, nada de incomum aconteceu: “Eu entrei no camarim e ela já estava lá. Sentei na minha cadeira e comecei a abrir a caixa de maquiagem quando começamos a conversar. Ela não disse nada fora do normal, nada que pudesse indicar o que aconteceu. Quando terminei, guardei minhas coisas e encostei minha cadeira. Ela estava muito bem quando saí para encontrar o resto do elenco nas coxias. Estava até calma demais.”
Já o diretor Marcus Alvisi conta que ele e Fernanda discutiram seriamente na véspera. “Nós havíamos acabado de ensaiar a cena final quando ela veio conversar comigo. Disse que estava cansada dos atritos com partes do elenco, que não estava conseguindo lidar com isso. Eu disse que não havia o que fazer, que ela tinha que se controlar e que tinha toda a experiência de anos de carreira para ajudá-la. Então ela simplesmente se descontrolou, o que não é nada normal. Ela sempre foi uma pessoa centrada, nunca deixou transparecer nada. Sem dúvida, é a atriz mais profissional e talentosa com quem já trabalhei”, completa o diretor, que já realizou montagens em parceria com lendas do teatro, como Denise Fraga, e Fernanda Montenegro. “Ela era muito modesta. Não sabia – ou não aceitava – o fato de ser muito melhor do que sua mentora, Fernanda Montenegro”, conclui, referindo-se a Meirelles no pretérito imperfeito.
A parceria de Fê Meirelles com sua axará começou em 2008, depois da morte de Fernando Torres, o marido de Fernanda Montenegro. O ator, que morreu de enfisema pulmonar em sua casa em Ipanema, no Rio de Janeiro, foi cremado, não havendo velório. Fê Meirelles, então no Rio para cinco apresentações de “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, dirigiu-se à casa de Fernanda Montenegro para oferecer seus pêsames. A atriz veterana descreve o encontro: “A Fé é encantadora. Ela chegou e tocou a minha campainha. Quando abri a porta ela timidamente se apresentou como atriz e admiradora e me ofereceu seus pêsames. Eu precisava urgentemente de alguém com quem conversar e tivemos uma empatia imediata. Ela se sentou e comecei a desabafar com ela, como se já a conhecesse há muito tempo. A certa altura, me descontrolei e comecei a chorar. A Fê me consolou e dirigiu-se à minha cozinha, como se estivesse em casa. Abriu os armários até encontrar uma chaleira e a caixa de chá de camomila. Encheu a chaleira, esperou a água ferver e pegou uma xícara do armário. Quando ela voltou à sala, com o chá, vi que ela tinha pegado a xícara que o Fernando me deu no nosso primeiro aniversário de casamento. Foi tudo o que eu precisei para me convencer de que ela era especial”. Após cinco anos de uma pareceria de sucesso, Meirelles estreou sua primeira grande peça, “A Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues. Recebida muito bem pela crítica, a jovem atriz usou da peça seu trampolim para o sucesso e nunca mais deixou de subir.
As duas semanas do desaparecimento de Fê Meirelles já foram o bastante para que muitos boatos surgissem sobre a atriz, que sempre gozou de uma vida pessoal reservada. Fofocas de fãs-clubes especulam sobre o possível envolvimento do ex-marido da atriz, o colega de profissão Wagner Moura. Filósofos defendem a tese de Fê ter fugido para a Espanha, encantada pelo magnetismo do quadro “Las Meninas”, de Velásquez, e antropólogos debatem a possibilidade de a atriz ter largado sua vida de conforto na metrópole e, em um ataque de (neo)neo-arcadismo, emigrado para o seio de uma tribo Bororo, no norte do país. A verdade é que ninguém sabe o paradeiro de Fê Meirelles, a não ser, talvez, por alguns caciques, pajés e vigias de museus em Madri.
10 de dezembro de 2008
O céu estrelado de Goiás
De dentro do elevador já consigo ouvir os ecos da voz aveludada de Diana Krall. Bato à porta e sou recebido por uma figura arrumada demais para um encontro casual: vestido preto curto, sapatos pretos de salto e um cachecol vinho pendendo do pescoço. Os cabelos, habitualmente presos, estão soltos e úmidos, destoando do conjunto. É quase como se ela, confirmando os rumores de ser uma pessoa atrasada, tivesse saído do banho e se vestido às pressas quando cheguei. Apressada ou não, ela disfarça muito bem e me recebe com a simpatia dos tempos em que estudávamos juntos. Apesar de ser uma das mais cultuadas diretoras de cinema da nova geração, Vivyane Garbelini não perdeu a graça e simplicidade pueris.
Seu apartamento é simples. Fugindo do estereótipo do diretor de cinema afetado, cercado por obras de arte e peças de estilo renascentista, Vivyane vive em meio a móveis modernos e de linhas limpas. A cozinha americana quase integra-se à sala, separada somente por um balcão. A sala faz vezes de jantar e visita ao mesmo tempo: “Não preciso de duas salas, moro sozinha, uma só está mais do que bom”. Sentamos em frente ao aparador da televisão, em um sofá de couro preto, que divide o espaço com um pufe, também de couro preto. Os quadros nas paredes brancas são pôsteres de filmes clássicos. O apartamento de Vivyane não nega quem ela é nem o que faz.
Considerada por muitos herdeira do legado deixado por Fellini e Pasolini, as semelhanças da jovem cineasta com os mestres italianos vão além do nome (resista, leitor, à tentação de colocar Mussolini no mesmo saco): seus filmes resgataram o neo-realismo italiano, atualizaram-no e, apresentando personagens infinitamente mais complexas e reais, aproximam-se de outro grande antecessor, o espanhol Pedro Almodóvar. Depois de explodir no último Festival de Cannes e levar quatro prêmios (melhor atriz, melhor ator, melhor diretor e a disputada Palma de Ouro), seu último filme, “Lembranças de um Bororo”, desembarca na próxima sexta-feira em terras tupiniquins.
Até 2008, ano em que entrou na Faculdade Cásper Líbero e veio morar em São Paulo, Vivyane não pensava seriamente em fazer carreira no cinema. Tudo mudou com um curso de Direção de Arte na falecida Escola São Paulo, antigamente situada na respeitável rua Augusta. “A Vera Hamburguer [diretora de arte que ministrou o curso] fazia a gente enxergar a direção de arte de uma forma diferente, não como algo secundário, mas como algo que complementava a direção, o que acabou me levando a estudar os outros aspectos da realização de um filme.” O primeiro curta-metragem, ParImpar, veio ainda naquele ano, em colaboração com o amigo e conterrâneo João Dias Turchi. Apesar de ainda inexperiente, a direção do curta já revela traços de alguém que sabe o que está fazendo. “O ParImpar nasceu quase como uma brincadeira. Eu e o João pensávamos que entendíamos de cinema”. Em ParImpar, Ana encontra a agenda de Álvaro na sala de espera do psiquiatra. Ao descobrir que o paciente planeja cometer suicido em um determinado dia, ela telefona para ele e, através de assuntos sem sentido e uma conversa que não termina mais, faz com que ele perca a hora e desista do crime.
No último ano de faculdade, o trabalho de Vivyane sobre a obra de Ingmar Bergman chamou a atenção do diretor brasileiro Fernando Meirelles, que adotou a recém-formada jornalista como discípula. “Graças ao Fernando – o Meirelles, não você – que eu consegui começar direito.” Com um padrinho recentemente lançado ao status de queridinho dos estúdios de Hollywood, essa estrela do Planalto Central fez uma escalada meteórica. “Só acho triste ver tanta gente aí fora que tem talento e não consegue uma oportunidade dessas. E não só no cinema”. Sobre a terra-natal, Vivyane só fala com saudades: “Foi difícil vir de Goiânia pra cá. Lá eu tinha toda uma vida, aqui estava sozinha, pelo menos por um tempo”. Sobre os projetos futuros, como todo diretor que se preze, ela evita comentar. “Estou estudando um roteiro com o Gael [García Bernal] e a Penélope Cruz; eles se interessaram muito pelo projeto e estamos planejando algo”, conclui, com tal charme e simpatia impossíveis de contrariar.
4 de setembro de 2008
Confissões de uma barista perigosa
De grão em grão (de café) a barista enche o papo.
Equilibrando seu iphone e um copo de café, a barista chega esboçando seu constante sorriso de trás de seus grandes olhos castanhos. Mariana Senrra, a barista da Starbucks da Alameda Santos, que toma café frio desde criança, conta como é trabalhar na cafeteria que está roubando a cena paulistana e revela: mais nove lojas serão abertas ate o final de 2008, três delas nos arredores da loja 007, na mais paulista das avenidas.
Como você veio trabalhar na Starbucks?
A minha amiga Evelyn tinha visto no jornal um anúncio “venha trabalhar na Starbucks”. Como ela sabe que eu sou atrasada, me disse que a entrevista era até as dez da manhã (era até as cinco horas da tarde). Nós duas fizemos a primeira entrevista – com o Luiz e a Renata – e depois, conforme a pessoa ia passando, eles iam telefonando e chamando, então acabei passando por mais duas pessoas.
Depois nós fizemos um exame bem vergonhoso, cada um com o seu potinho. E foi horrível porque nós estávamos todos na mesma sala, olhando um para o outro e pensando “eu sei que você tem um potinho desse na sua mala”. Mas foi isso, foram três entrevistas. Mas que critério usaram, eu não sei. Afinal, eu estou aqui.
E na época você estava procurando alguma coisa ou foi por acaso?
Foi meio coincidência. Porque na época, eu e ela [Evelyn] estávamos procurando emprego e ela tinha conseguido na escola dela, porque a diretora tinha um filho que era gerente de uma cafeteria por aí, e a gente já tava garantida lá. Só que ela leu de última hora no jornal. Eu nem sabia que tinha Starbucks em São Paulo – pra você ver como eu sou ligada. Eu só sabia de nome, sabia o que era, mas nunca tinha vindo.
E você veio fazer entrevista para essa loja?
A entrevista era aqui, mas, na verdade, era pra loja da Faria Lima. Mas a Renata perguntou qual era a melhor pra mim e eu falei do começo ao fim “A Paulista é mais perto, a Paulista é mais perto”.
Como funciona a “hierarquia” da Starbucks?
No sentido de conhecimento você primeiro se forma como barista; depois você faz o coffee explorer, que é o iniciante, depois o specialist, que tem o pin mais bonitinho; e aí, por úiltimo, o coffee master - só quem tem avental preto é coffee master.
E a gente tem a impressão de que é normal extrapolar a relação com os clientes e o relacionamento não ficar só aqui, o cliente deixar de ser só cliente. É normal mesmo?
É. E pode, pode fazer isso. O que não pode é eu estar de avental no balcão batendo papo com você, no mínimo porque eu estou trabalhando. Mas eles inclusive incentivam que você faça amizade com os clientes. Não é nem pela idéia de “ah, ele é meu amigo, ele vai trazer mais dinheiro pra loja”; tudo bem, tem a idéia “ele é meu amigo, então ele vai contar pros amigos como foi bem atendido”, mas é sempre porque ele vai passar a experiência Starbucks.
Outro dia veio um cliente querendo comprar 25 expressos, em forma de vales, que ele queria distribuir na aula pros alunos, porque tudo o que está descrito no livro do Howard Schults [um dos criadores e gerente geral da Starbucks] ele sentiu aqui.
E a diferença entre os níveis de barista e coffee master é de conhecimento?
Só de conhecimento. De profissional, que ganhe mais, etc, são outros. São barista; coordenador, que quando chega vai definir o que cada um vai fazer durante o dia, cada posição que cada um tem e vai mexer com as cosias administrativas; acima do coordenador, tem o assistente de gerente, que tem bem mais responsabilidades – praticamente tudo o que o gerente faz, mas ele mais assiste mesmo o gerente; tem o gerente da loja, que é o manda-chuva da loja; acima do gerente, já são umas partes mais ausentes, são os gerentes de distrito, cada um com oito lojas.
E a rotina de vocês é meio fluente? Vocês nunca parecem estar sempre no mesmo lugar.
O intuito não é fazer uma fabriquinha, não dá pra ficar como no Tempos Modernos. Nunca tem exatamente uma posição fixa. A gente coloca sempre duas posições por dia, uma antes do intervalo uma depois e, de preferência, opostas. Por exemplo, se você está no bar quente de manhã, vou evitar de te colocar no frapuccino depois.
E os horários de vocês são meio flutuantes, né? Dá pra conciliar com alguma outra coisa, com faculdade, por exemplo?
A gente divide um pouco os períodos. Eu, de umas semanas pra cá, por exemplo, só tenho feito abertura. Uma vez por semana, mais ou menos que eu faço um horário que não é tão abertura.
Quando eu estava fazendo faculdade, dava tempo, porque eu precisava sair até as quatro, então eu podia entrar às seis, às sete ou às oito. Se você tiver um horário assim, só de manhã ou só à noite, dá pra conciliar.
